ACESSIBILIDADE NO TURISMO BRASILEIRO

O Turismo brasileiro, ainda que amador em alguns aspectos, necessita da busca pela responsabilidade social contínua. Você sabia que o direito da inclusão de pessoas com deficiência em atividades turísticas está previsto no Estatuto da Pessoa com Deficiência?

De acordo com o Art 8° da lei n° 13.146 de 6 de julho de 2015 (Brasil, 2018), é dever do Estado, da sociedade e da família assegurar à pessoa com deficiência, com prioridade, à cultura, ao desporto, ao turismo, ao lazer, entre outros decorrentes da Constituição Federal, da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência que garantam seu bem-estar pessoal, social e econômico.

Hoje, conforme os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 6,2% da população brasileira possui algum tipo de deficiência ou desabilidade. Ainda assim, há falta de iniciativas voltadas para essa parcela da população em nosso país. Com os anos PcD’s vem ganhando visibilidade através de iniciativas e lutas ativistas, mas ainda há muito a fazer.

Já na atividade turística existem programas que visam a inclusão e a segurança desse grupo social

Para que possamos trazer uma introdução ao tema da acessibilidade no turismo, nós trouxemos uma das melhores referências para a abordagem desse assunto dentro do setor no Brasil.

ESPECIALISTA

Ricardo Shimosakai

Ricardo Shimosakai trabalha com lazer e turismo centrado em pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Sua carreira nesta área iniciou a partir de um incidente depois de retornar de uma viagem ao Japão à trabalho, Ricardo Shimosakai levou um tiro, vítima de um sequestro relâmpago, resultando numa lesão medular que lhe tirou os movimentos das pernas.

Ele relata que seu processo de aceitação se iniciou ainda no hospital durante sua recuperação, pois foi onde percebeu que não deixaria esse ocorrido afetar negativamente em sua vida e seus gostos. Ricardo então se apegou em sua paixão pelos esportes e pela viagem e decidiu a partir dali continuar vivendo sua vida como antes. Com o tempo foi percebendo as dificuldades que impossibilitaram práticas acessíveis em destinos turísticos, e notou que seus colegas sofriam das mesmas adversidades que ele.

Desde então Ricardo se dedicou a aperfeiçoar seus conhecimentos técnicos na área de turismo através do curso da Anhembi Morumbi, para que juntamente com seus aprendizados adquiridos através de suas vivências pudesse oferecer serviços de consultoria que abrangem a questão da acessibilidade e inclusão no turismo por uma nova visão no Brasil. 

AMPLIANDO O CONCEITO

Para entendermos mais sobre esse tema, é importante ampliar nosso conhecimento sobre o que é acessibilidade. Precisamos abrir nosso olhar para o conceito. Quando nós falamos em acessibilidade, grande parte das pessoas imagina que se trata apenas de adaptações feitas em locais públicos para garantir que pessoas com diversos tipos de deficiências sejam incluídas na sociedade. Como por exemplo, as rampas de acesso em calçadas para cadeirantes ou a utilização de dispositivos de voz para deficientes visuais.

Contudo, para você oferecer acessibilidade para pessoas com deficiência você deve ir além e incluir esta preocupação no planejamento do turismo da cidade.

Segundo Ricardo Shimosakai, existem quatro pilares essenciais para a inclusão desse grupo em atividades turísticas.

O primeiro deles diz respeito a estrutura arquitetônica do espaço. Neste podemos identificar como base eliminar as barreiras físicas de um local. Esta acessibilidade abrange adaptações físicas como a instalação de rampas, elevadores e banheiros adaptados, calçadas com piso tátil, etc.

O segundo pilar abrange os equipamentos e acessórios direcionados para pessoas com deficiência disponíveis no espaço. Cadeiras de banho, cardápios em braile, mapa tátil, equipamentos acessíveis para as atividades, entre outros.

O terceiro e um dos mais importantes é o atendimento prestado pelos profissionais que terão contato com as pessoas com deficiência. Implementar um atendimento de excelência é essencial para evitar situações desconfortantes para os turistas. A capacitação de guias para a acessibilidade é importante pois ela é responsável por proporcionar uma experiência agradável para todos os participantes da atividade, seja em ajuda na locomoção para visitantes com mobilidade reduzida, um guia intérprete de libras para deficiências auditivas, orientações específicas para deficientes visuais e entre outras situações.

A comunicação é o último pilar indicado por Ricardo. Ele relata que muitos empreendimentos possuem instrumentos acessíveis em seus atrativos porém não existe a divulgação dos mesmos em suas mídias sociais. Então é importante investir também na comunicação dessas ações.

Esses então são os principais fatores para a qualificação acessível entre empreendimentos e serviços turísticos a fim de proporcionar uma experiência de qualidade em questões adaptáveis para pessoas com deficiência.

CONSCIENTIZAÇÃO

Ainda é aparente o grande desafio que é se obter a inclusão de pessoas com deficiência nos mais diversos espaços sociais. Por muitas vezes é possível perceber situações de preconceito em relação a essa minoria social.

Segundo Ricardo, ainda há um impasse considerável na mídia. Um grande exemplo são os jogos paralímpicos que não recebem a devida divulgação da imprensa. De acordo com ele, os atletas das paralimpíadas recebem mais medalhas do que atletas das olimpíadas tradicionais e mesmo assim há pouca divulgação sobre essas premiações. Até mesmo enquanto as paralimpíadas aconteciam ele sentia dificuldade ao procurar pelo resultado dos jogos, reforçando a pouca atenção dada a questões sociais como estas.

Contudo, desde o início de sua carreira, Ricardo relata perceber alterações nos padrões durante esses anos. A responsabilidade social cresceu e a necessidade da inclusão das pessoas com deficiência a fim de diminuir o preconceito vem se tornando mais presente com o passar do tempo.

Questões sobre diversidade hoje são pautas relevantes para garantir que as pessoas tenham o poder de serem quem elas são e que haja valorização das perspectivas e dos talentos singulares de todos os indivíduos. Um grande exemplo disso é o programa Reprograma CVC que vem apresentando iniciativas em prol à sustentabilidade e inclusão da diversidade em seu ambiente corporativo.

A inclusão é instrumento base para o desenvolvimento da sociedade e é imprescindível saber que ela deve partir do nós mesmos. Isso provém de quando quebramos preconceitos estabelecidos culturalmente em nós, quando questionamos ações equivocadas de pessoas que conhecemos, da aplicação de iniciativas em nosso ambiente de trabalho, na busca do conhecimento e procura de melhora em função de tornar seu entorno mais tolerante. E vai muito além disso, basta ampliar seu olhar e analisar o que poderia ser diferente para que consigamos tornar a aceitação mais presente,

Tornar espaços acessíveis significa promover um serviço aprimorado para o público geral, uma vez que fornecer iniciativas em prol da inclusão de PcD 's demonstra interesse em causas sociais e atenção na segurança de seus turistas. Planejar melhor arquiteturas, espaços, equipamentos e materiais implica em obras de melhoria para o bem-estar de todas as pessoas.

Quando observamos atrativos turísticos adaptáveis percebemos a presença de um planejamento bem elaborado que supre todas as necessidades não somente básicas por parte do prestador de serviços, mas como também a preocupação na abrangência de todas as classes sociais. Tudo isso reflete em uma percepção transparente de segurança por parte do empreendimento.

INDICAÇÕES

Ricardo indica duas localidades como grandes referências que possuem um olhar para a acessibilidade no turismo. A Alemanha é um exemplo em iniciativas no turismo adaptável e como referência nacional São Paulo se destaca como destino turístico acessível. 

Existem várias ações que prezam pela acessibilidade no nosso país

GUIADERODAS

O Guiaderodas é uma empresa de tecnologia a favor da acessibilidade que tem o objetivo de proporcionar uma vida mais autônoma e inclusiva para todos. A empresa promove vários projetos que visam a conscientização e incentivo ao “pensar acessível”.

A certificação Guiaderodas é um desses projetos. Tem como intuito enaltecer as melhores práticas de acessibilidade e fazer com que as empresas firmem um compromisso em oferecer a melhor experiência para os seus visitantes.

Em seu site é possível encontrar ferramentas que facilitam a procura da pessoa com deficiência em relação a atrativos e estabelecimentos turísticos em determinadas localidades. O visitante também pode avaliar através da página serviços turísticos já utilizados anteriormente. Existe a opção de procurar por categorias como restaurantes, hotéis, atrativos e suas respectivas cidades.

Conheça o site do Guiaderodas aqui

O Guiaderodas possui um aplicativo com uma função similar a página do website. Nele é possível qualquer pessoa avaliar ou consultar a acessibilidade física dos locais que visita. Os locais podem ser avaliados como “verde”, acessíveis, “amarelo”, parcialmente acessíveis, ou “vermelho”, inacessíveis. As informações registradas no app conferem previsibilidade para que pessoas com deficiência ou restrição de mobilidade possam planejar melhor seus destinos e estimulam os estabelecimentos mal avaliados a aprimorarem sua estrutura e atendimento para bem receber a todos.

Baixe o aplicativo Guiaderodas

REDE DOS SONHOS

A Rede dos Sonhos é um conjunto de hotéis fazenda localizados nos estados de Minas Gerais e São Paulo. São quatro unidades com diversas atividades relacionadas ao turismo rural e ao turismo de aventura. 

Você sabia que duas dessas unidades oferecem serviços acessíveis para pessoas com deficiência?

O Campo dos Sonhos e o Parque dos Sonhos são grandes referências quando o assunto é atratividade turística acessível, seus lemas visam valorizar a inclusão de todos. Ambas unidades têm várias atividades para diferentes tipos de pessoas, sem contar o atendimento de excelência prestado por todos os funcionários que são qualificados previamente

“Grande parte das atividades que oferecemos aqui no Hotel Fazenda Parque dos Sonhos é executada com equipamentos de acessibilidade, como a cadeirinha adaptada a pessoas paraplégicas e tetraplégicas usadas na tirolesa, selas de cavalo para pessoas com deficiência e cadeirinha aquática para atividades feitas nas piscinas e na Cachoeira dos Sonhos. Temos também bicicletas, triciclos e quadriciclos que podem ser usados por todos, entre outras atividades”.

Conheça o site do Parque dos Sonhos 

RECOMENDAÇÕES

Nós da Férias Vivas preparamos alguns materiais para que você possa aprofundar seus conhecimentos sobre turismo acessível. 

Aproveite e aprenda conosco!

Cartilha Empreendimentos Acessíveis 

Cartilha desenvolvida pelo Sebrae/PE onde seu objetivo principal é orientar os empresários na preparação e/ou adequação dos empreendimentos turísticos baseados nas Normas Técnicas de Acessibilidade da ABNT NBR 9050, a fim de que seus estabelecimentos se tornem acessíveis.

Portifólio Ricardo Shimosakai

Através deste portfólio você poderá conhecer os mais importantes trabalhos realizados pelo Ricardo, com resultados fantásticos voltados para uma acessibilidade funcional e inclusão total no turismo

Turismo e Acessibilidade - Manual de Orientações

Este Manual de Orientações desenvolvido pelo Ministério do Turismo tem o intuito de orientar e instrumentalizar o setor turístico para a promoção da acessibilidade às pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida.

Como Organizar uma Viagem com Acessibilidade - Ebook

Este ebook reúne experiências relatadas, no formato de um guia de preparação de viagens. Ele incentiva pessoas com deficiência a viajar e deixarem de lado a insegurança, própria ou de familiares, de lidar com um mundo que não é acessível!

Sobre a consultoria

Silvia Basile

Constituímos, em 2002, a Associação Férias Vivas que já trabalhou na elaboração de 41 Normas Técnicas ABNT NBR de Turismo de Aventura, sendo 17 Normas Técnicas internacionais ABNT NBR ISO. Junto com embaixadores e parceiros, criamos assim padrões de qualidade e segurança nas atividades de turismo no Brasil. Em 19 anos de atuação na área de conscientização e prevenção de acidentes no turismo, esta vivência proporcionou aos consultores da Associação Férias Vivas a capacidade analítica e a experiência prática para a implantação de projetos de gerenciamento de risco em destinos de turismo. Nossa articulação com o setor público se faz eficaz ao comprovar que iniciativas de sensibilização e gestão da segurança são essenciais para o desenvolvimento responsável do turismo.

  • sbasile@feriasvivas.org.br