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Segurança

Em busca de um final feliz

Normas de qualidade e segurança colocam o Brasil na rota internacional do turismo de aventura

Sergio A. Brasil

Cena 1: A estudante Letícia Santarém Rodrigues, 20 anos, morre ao pular de bungee-jump em um pontilhão ferroviário entre Araguari e Uberlândia (MG), no dia 3 de julho deste ano. A cinta que a prendia rasgou, fazendo-a cair de uma altura de 50 metros. O pai implora a regulamentação desta prática. E o deputado federal João Paulo Gomes entra no Congresso Nacional com projeto de lei para proibir o esporte.

Cena 2: No dia 19 de janeiro, o cabo do parasail (espécie de pára-quedas puxado por um buggy) se rompe e o turista pernambucano Sandro Romero, 38 anos, que sobrevoava a Praia de Cumbuco (CE), despenca de uma altura de 20 metros e morre.

Cena 3: Na cidade de Baía Formosa (RN), imediações da badalada Praia da Pipa, a empresária paulista Lúcia da Silva Fachga, 51 anos, fere-se no pescoço durante um passeio de buggy, no dia 30 de junho. É levada para o hospital, mas não resiste. O motorista fugiu após o acidente.

O roteiro desse filme, uma tragédia que retrata o triste fim das férias de três brasileiros, tem um implacável fio condutor que une as histórias: a impotência dos personagens diante do descuido na segurança e do despreparo dos profissionais que deveriam zelar pela vida de seus clientes. Dramas assim, lamenta-se, não se escondem na ficção do cinema. São fatos reais – o barco de passeio que naufraga, o tropeço fatal na descida do paredão de uma cachoeira, o montanhista desorientado que se perde nas trilhas. As notícias se transformam em manchetes, cruzam fronteiras e espantam turistas. Mas a tendência é o espaço do noticiário para essas catástrofes tornar-se cada vez mais reduzido. A boa-nova vem da atual e inédita mobilização das empresas, do poder público e das lideranças que atuam com turismo de aventura, em torno de um objetivo comum: criar normas que garantam a segurança e a qualidade dos serviços. “É urgente instalar uma nova cultura para o setor”, destaca Gustavo Timo, coordenador do Projeto de Normalização e Certificação em Turismo de Aventura, motor desse movimento que começa a mudar conceitos e atitudes.

O Ministério do Turismo, que investe R$ 2,3 milhões no projeto, executado pelo Instituto de Hospitalidade (IH), rompeu barreiras que classificavam o turismo de aventura como uma atividade periférica. Agora, é considerado como estratégia de desenvolvimento. “Da canoagem à cavalgada, do rafting ao trekking, atividades de aventura deixam de ser hobby ou excentricidades de pessoas que têm isso como um estilo de vida sem compromissos, passando a ser profissionalizadas e vistas como prioridade nacional”, reflete Gustavo. Só assim, explica o diretor do programa, será possível dar a volta por cima.

O próprio Gustavo, 28 anos, ex-proprietário de uma operadora em Belo Horizonte, sentiu na pele as conseqüências da insegurança. “Ao fazer rapel numa cachoeira da Serra do Cipó, um dos meus clientes caiu e quebrou o pulso”, conta o diretor. Ele admite: “Erramos ao acreditar que os próprios integrantes do grupo poderiam dar segurança uns aos outros no percurso – o que hoje é profissionalmente inconcebível”.

O problema não teria ocorrido se, na ocasião, já existissem as regras para as diversas modalidades de aventura, que agora começam a ser adotadas no país. “É preciso padronizar e organizar o setor”, adverte o carioca Gabriel Werneck, 23 anos, dono da operadora Riohiking. “Hoje qualquer um pode exercer esse trabalho, que envolve riscos à vida, bastando para isso apenas um registro como guia ou agente de viagem na Embratur”, lamenta o empresário. Detalhes com a segurança são os segredos do sucesso. Gabriel começou operando tour de caminhada na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, há seis anos. Hoje atende cerca de mil turistas por ano. Vôo de asa-delta, cicloturismo e observação de pássaros (birdwatching) são os destaques. “As oportunidades do setor são ótimas, desde que os riscos típicos da aventura, que implica vencer desafios, não se transformem em tragédia e destruam nosso negócio.”

Consciente disso, Gabriel e um atuante grupo de especialistas nos vários segmentos de aventura participam das reuniões, coordenadas pelo IH, para diagnosticar problemas, identificar riscos e encontrar os melhores caminhos para garantir serviços seguros e responsáveis.O trabalho começou em dezembro de 2003. As primeiras três normas, que já passaram por todos os processos de consultas públicas e aprovações, deverão ser publicadas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) ainda neste ano, passando a valer oficialmente. Abordam cuidados prioritários, inerentes a todas as atividades de aventura: a gestão da segurança, as competências e qualificações mínimas para condutores e o que deve ser informado ao cliente antes da prática de alguns desses esportes. “Com elas, será possível reduzir acidentes e controlar melhor a operação dos passeios”, diz Gabriel.

 Mercado se profissionaliza

Após essa etapa inicial, outras oito comissões de estudo foram instaladas em julho para criar mais 19 normas, voltadas para o turismo de veículos fora de estrada, escalada, montanhismo e caminhadas de longo percurso, entre outras modalidades. Os padrões, inéditos no mundo, avançaram a partir de modelos internacionais de sucesso, como o da Nova Zelândia, que implantou sistemas de qualidade e se tornou paraíso mundial do turismo de aventura. “Trata-se de quebrar paradigmas, ampliando a consciência da qualidade”, explica a arquiteta Sílvia Basile, 52 anos, diretora da Férias Vivas, uma organização não-governamental que orienta turistas a prevenir acidentes, evitando que o sonho do merecido descanso nas férias se transforme em pesadelo. Uma cartilha com dicas de como evitar o pior foi relançada em agosto, na feira Adventure Sports Fair, realizada em São Paulo.

“Numa grande cidade como São Paulo, ninguém atravessa a rua sem olhar para os dois lados, mas, durante as viagens, o turista relaxa a ponto de confiar sua vida a pessoas que mal conhece”, acrescenta Sílvia. Ela convive até hoje com o drama que se abateu na família, após a morte de sua filha Vitória, a Vivi, de 9 anos, vítima de um acidente durante um passeio de cavalo operado por um resort na Praia de Maragogi (AL), no carnaval de 2002.Ao utilizar uma sela inadequada, a menina prendeu o pé no louro – e não no estribo – e acabou arrastada pelo animal. “A idéia é lutar para que a dor não se repita com outras famílias”, revela Sílvia.

As normas terão adesão voluntária e criarão diferenciais no mercado. “Quem não acompanhar o novo processo acabará quebrando”, prevê Sílvia. A tendência é o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) credenciar instituições para conceder selos de certificação às empresas, atestando ao consumidor o enquadramento nos novos padrões de segurança e controle. Espera-se que a iniciativa abra novos nichos de mercado e amplie os já existentes, como lojas de roupas e equipamentos apropriados para as aventuras, que hoje faturam em torno de US$ 250 milhões no país. Entre os negócios mais promissores estão as escolas para capacitação de guias especializados, obedecendo às novas exigências.

“Já estava na hora”, afirma o empresário Nélson Pudles, o Drá, um dos líderes do Cosmo, entidade que reúne voluntários para o resgate de vítimas acidentadas nos percursos de montanhismo do Parque Estadual Pico do Marumbi, na Serra do Mar paranaense. O grupo é pioneiro na criação de procedimentos de resgate, elaborados a partir de experiências de outros países, como França e Itália. Os manuais são hoje utilizados no treinamento de voluntários e de profissionais, como guias de ecoturismo e militares. Se o turismo de aventura de desenvolver como o previsto, estima-se que até universidades comecem a oferecer cursos abrangentes para formar esses novos profissionais, a exemplo do que já acontece em países como a França.

Esse foi o caminho seguido pelo francês Jean Claude Razel, proprietário da Alaya Expedições, localizada em Brotas (SP). Antes de descobrir o potencial brasileiro nesse campo e cruzar o Atlântico em busca de uma vida nova, ele freqüentou uma universidade na França para ter o diploma de guia de escalada e trabalhar com turistas nos Alpes. Hoje sua empresa tem 18 empregados e 50 guias terceirizados, atuando em mais de 20 atividades de aventura em diferentes roteiros no Brasil. “O apelo do contato com a natureza e da superação de desafios tem impulsionado o mercado, embora os atrativos continuem caros para a classe média”, analisa Vivian da Cunha, gerente de marketing da Alaya. “Além disso, o brasileiro em geral prefere passar o dia num shopping center a investir no saudável esforço físico de uma caminhada em trilhas.”

Adesão dos municípios

 A diversificação é a estratégia de sobrevivência na baixa temporada. Para fugir das vacas magras, quem aposta na aventura encontra novos campos de trabalho. Um deles é aplicar a experiência adquirida na natureza para treinar

executivos de grandes empresas, estimulando-os a vencer limites e desenvolver o espírito de equipe. A Alaya também constrói percursos de arvorismo e presta consultoria para prefeituras, como Paulo Afonso (BA), que está incentivando a prática de rapel nos paredões do cânion do Rio São Francisco, transformando a região em pólo de ecoturismo.

O município pioneiro nesse esforço foi Brotas, que aprovou leis organizando a atuação dos empreendedores. A segurança é o foco principal. As exigências vão do tipo de sapato que precisa ser utilizado em certos passeios até o número máximo de pessoas em cada atividade. Canoagem, bóia-cross e rafting são os principais atrativos. Hoje a cidade recebe 100 mil visitantes por ano, quase o dobro de cinco anos atrás. Desde 1993, o número de agências de turismo e de hotéis e pousadas quadruplicou. De olho nesses benefícios, outras cidades, como Socorro (SP), decidiram seguir a mesma trilha para gerar emprego e aumentar a arrecadação. Além disso, governos estaduais, a exemplo do Rio Grande do Sul e São Paulo, encaminharam para o Legislativo projetos de lei para impulsionar o turismo de aventura de maneira segura e sustentável.

Motivos para apostar no futuro desse mercado não faltam. Rico em florestas, rios, áreas naturais preservadas e vários tipos de relevo e paisagens, além de um extenso litoral de 8 mil quilômetros, o Brasil é um país de grande potencial para o turismo que explora o espírito de aventura e a emoção de conquistar lugares desconhecidos. Chapada dos Veadeiros, Jalapão, Bonito, Foz do Iguaçu, Rio de Janeiro, Serra do Cipó, Lençóis Maranhenses e Fernando de Noronha, entre outros, são destinos cada vez mais procurados por turistas estrangeiros. É preciso avançar. As novas normas são um passo importante. Mas devem ser colocadas em prática. Dessa maneira, à medida que as notícias sobre os cuidados com a segurança chegam ao exterior, o Brasil terá boas chances de entrar definitivamente no roteiro internacional do turismo de aventura, que movimenta entre U$ 8 bilhões e U$ 10 bilhões anuais. Os acidentes deixarão de ocupar manchetes dos jornais e a qualidade dos serviços mais criteriosos fará o brasileiro perder o medo e optar pelas aventuras na natureza. E assim o nosso filme terá sempre um final feliz.

Hobby que vira negócio

O cearense Felipe Aragão Júnior, 28 anos, saboreava tainhas fresquinhas compradas de um pescador que desembarcava da jangada numa praia do Ceará quando perguntou para si mesmo: “Por que o turista convencional não tem essa oportunidade de estar em paraísos virgens, distantes da cidade e inacessíveis aos ônibus turísticos?”. Como resposta, ele e o pai, Felipe, montaram em 1998 a Dunnas Expedições, operadora especializada em roteiros off-road, sediada em Fortaleza. E passaram a organizar roteiros de aventura, como as viagens pela beira da praia entre Natal e Fortaleza, pontilhada de praias desertas. Hoje, Felipe preside a Associação Brasileira das Empresas de Turismo de Aventura, parceira do Instituto de Hospitalidade na elaboração das normas para o setor.

Host – É comum no Brasil ver o turismo como salvador da pátria, mas às vezes as expectativas são frustradas. Isso ocorre com o turismo de aventura? Qual o perfil desse mercado e quais obstáculos precisam ser vencidos?

Felipe – Como em outros países do mundo, esse setor é bastante pulverizado no Brasil. Agrupa empresas de pequeno porte que surgiram da paixão de seus empreendedores por um determinado esporte de aventura, levando-os a transformar o hobby em negócio. Enfrentamos custos elevados e somos bastante suscetíveis à sazonalidade. Apesar de já termos identificado um universo de 3 mil empreendimentos em todo o Brasil, não sabemos quanto o setor fatura. Mas uma coisa é certa: o turismo de aventura contribui bastante para a geração de emprego e renda em diversos municípios, movimentando uma extensa rede que vai do artesão ao resort de luxo. O principal desafio é a profissionalização do setor, tendo como prioridade a segurança. Sem isso, o negócio pode se tornar insustentável.

Host – Por considerar esse segmento uma prioridade, o Ministério do Turismo está investindo na melhoria da qualidade dos serviços. E os governos estaduais e municipais?

Felipe – Isso é uma longa batalha. Estamos tentando conscientizar os organismos estaduais responsáveis pela pasta do turismo, principalmente no Nordeste, que insistem em focar as ações de marketing institucional em promoções de curto prazo sobre a oferta turística de massa indiferenciada, pouco diversificada e de baixo valor agregado.

Host – As modalidades de aventura envolvem risco, esforço físico, busca de desafios. Quais os cuidados que o consumidor deve ter?

Felipe – É preciso observar se a atividade é segura e sustentável. Não se pode confundir turismo de aventura com esporte radical. Não se trata de superar limites. Apesar de não haver uma norma específica para bungee-jump, por exemplo, as empresas que prestam esse serviço devem estar alinhadas com a norma de gestão da segurança que será aprovada nos próximos meses. É preciso alertar os consumidores para que desconfiem de preços muito baixos. Uma pechincha pode significar risco de vida. Preços mais altos são resultado da experiência, do treinamento dos condutores e do uso de equipamentos de primeira linha.

Olhos

 “É crescente o número de imóveis rurais que
começam a desenvolver atividades de aventura
sem ter pessoal qualificado. Há muitas empresas
que visam somente ao lucro, deixando de lado
itens de segurança importantes”

Eduardo Spinola, Mountain Adventure

 “Com as normas, será mais
fácil distinguir os bons e os maus operadores.
Ainda há muitos pára-quedistas que resolvem
iniciar um negócio achando que a vida vai ser
uma grande aventura”

Massimo Desiati, Cânion Iguaçu

 “Para desenvolver o cicloturismo no Brasil,
é necessário investir em ciclovias nas estradas.
Faltam mapas confiáveis, e muitos hotéis e
restaurantes não recebem com boa vontade
os ciclistas com suas bicicletas”

Eliana Garcia, Clube de Cicloturismo

 “Muitas pessoas fazem rapel num dia e no
outro acham que podem ganhar dinheiro
levando grupos para descer cachoeiras e pontes.
O conhecimento só se adquire com a prática”

Jefferson Silva, Akakor Adventure

“É importante fazer o casamento entre
empresas de balonismo e operadoras de turismo
para que a modalidade seja mais divulgada.
Voar de balão é fascinante, mas o Brasil tem
hoje no máximo 60 pilotos”
Gabriela Slavec, Balonismo no Ar

 *Matéria publicada pela Revista Host Setembro 2005 – ano 2


 

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