Ano 1 - Jan/04
Pesquisa ADVENTURE FAIR 2003
Pesquisa efetuada na última Adventure Fair encontra-se em fase de análise de dados. No próximo boletim estaremos publicando resultados.
Revista Aventura e Ação
Edição Dezembro/Janeiro 2004 N. 113
Férias que valem a pena
A Associação Férias Vivas foi criada em 2002 pela arquiteta Silvia Basile, de 51 anos, que, após perder sua filha de nove anos em um passeio a cavalo e ver que nada estava sendo feito para a melhora da segurança no turismo brasileiro, resolveu lutar para que as pessoas saibam o que é prevenção e não transformem viagens de sonhos em pesadelos
POR CAMILA VASCONCELLOS
Aventura e Ação:
Como surgiu a idéia de fundar a Associação Férias Vivas?
Silvia Basile: Em fevereiro de 2002 fui passar o carnaval no Resort Salinas de Maragogi, em Alagoas com minha família e o hotel oferecia um passeio a cavalo monitorado. Nós o fizemos e, dois dias depois, minha filha Victória pediu para repetir o passeio com duas amiguinhas da mesma idade. Eu permiti, recomendando ao monitor que ficasse de olho nelas. Imaginei que cuidaria das meninas como se fossem suas filhas, mas ele permitiu que elas saíssem cavalgando na frente. Minha filha se desequilibrou (a sela era de adulto) e ficou com o pé preso. Foi arrastada por quase 100m, sofrendo traumatismo craniano e, aparentemente, morrendo na hora. O hotel a levou para um pronto-socorro local e, alegando que esse não tinha condições, a levou para um hospital público em Recife, Pernambuco, há mais de duas horas de carro de Maragogi. Só soubemos do acidente quando o corpo de Victória já estava em Recife e ninguém nos informava de nada. Quando cheguei lá, o corpo de minha filha já estava gelado e o hotel já havia retirado toda minha família de Alagoas, transportando-a para um hotel perto do IML. Quatro meses depois, o passeio continuava igual, não havia sido aberto um inquérito policial e o assunto parecia esquecido. Foi quando tive o insight de que outras crianças morreriam e também seriam esquecidas. Nesse mesmo mês de fevereiro, uma criança de sete anos morreu afogada no Beach Park, em Fortaleza e outra de quatro anos, que estava brincando na beira d'água, teve o crânio esfacelado por um jet ski desgovernado, em Florianópolis. Percebi que meu caso não era único e que eu precisava fazer alguma coisa para tentar mudar essa situação. A impressão era de que a vida de seres humanos não era importante. Isso sem falar na dor e no desamparo de famílias que, tenho certeza, até hoje não conseguiram superar o choque de mortes que poderiam ter sido evitadas.
A e A: A associação tem uma estatística dos acidentes que já ocorreram ou dos que ajudou a evitar que ocorressem?
Silvia: Não temos como saber se já evitamos algum acidente. Sabemos que conseguimos influenciar algumas pessoas para que elas não corram riscos desnecessários, provocados por imprudência, negligência ou imperícia de maus fornecedores. Acreditamos que um banco de dados de acidentes contribuiria para o conhecimento dos riscos e, conseqüentemente, para seu tratamento, por isso começamos a compilar os acidentes. Nossa busca tem sido em arquivo de jornais do país, o que provoca uma distorção nos resultados, com excesso de fatalidades. Não pretendemos identificar operadoras seguras. Acredito que o próprio mercado, através da conscientização, será regulador e a favor da manutenção das boas empresas, eliminando as más. Nesse aspecto é interessante notar que, dentro do meio da aventura ou mesmo em um destino específico, as pessoas conhecem os maus fornecedores e não fazem nada. Eles estão colocando em risco a manutenção de seu próprio negócio.
A e A: Como a associação, que não possui fins lucrativos, se sustenta?
Silvia: Através de contribuições, doações e venda de camisetas. Além disso, contamos com a ajuda de amigos e parentes. Essas contribuições têm nos mantido mas, por falta de recursos, não temos conseguido desenvolver projetos.
A e A: O que ainda é preciso fazer?
Silvia: Precisamos urgente de uma mobilização nacional que deixe de lado interesses políticos e pessoais. Tenho visto ações de regulamentação e leis sendo criadas sem embasamento técnico ou jurídico. Nosso grande objetivo é disseminar uma cultura de prevenção de acidentes em turismo e lazer. O brasileiro parece ter vergonha de fazer perguntas e pedir esclarecimentos. Não acredite em palavras. Peça informações por escrito. Antes de viajar, entre em contato com as associações de cada atividade e faça uma pesquisa paralela sobre a infra-estrutura de atendimento emergencial do local que você está indo. Nosso grande valor é a vida do indivíduo e o direito do cidadão. Queremos promover a atitude segura na vida das pessoas. Temos uma máxima que diz que o bom serviço influencia positivamente uma pessoa, e o mau serviço influencia negativamente 7 pessoas.
Se não fizermos nada em relação à qualidade do serviço, continuaremos na rabeira dos destinos internacionais. Quando viajamos, não sabemos se vai chover ou não. Do mesmo modo, não podemos prever acidentes.
COMTUR apóia AFV institucionalmente
São Paulo, 29 de dezembro de 2003.
Of. COMTUR 120/03
Prezada Senhora,
O Conselho Municipal de Turismo da Cidade de São Paulo COMTUR, órgão que reúne 35 entidades representando o poder público e o setor privado, aprovou, por unanimidade, em sua CXXVI Sessão Ordinária do COMTUR realizada dia 27 de novembro de 2003 e em conformidade com sua norma interna 004/2003, a cessão do apoio institucional a ONG Associação Férias Vivas, por se tratar de um trabalho que visa à melhoria dos padrões de segurança e integridade física no turismo de lazer, através da educação e a conscientização na prática de esportes.
A Associação Férias Vivas irá utilizar as logomarcas do COMTUR, da Anhembi e da Prefeitura do Município de São Paulo nas folheterias e apresentações que fizerem.
O Conselho Municipal de Turismo, por meio de sua Assessoria Técnica, coloca-se à disposição para as informações e esclarecimentos que se fizerem necessários.
Atenciosamente,
Celso Marcondes
Presidente COMTUR
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