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Conversamos com a irmã de Ana, Nádia, que nos concedeu a seguinte entrevista:
AFV: A sra. poderia descrever o perfil de Ana Rosa, sua irmã e nos dizer o que a levou a fazer o vôo de Asa Delta?
Nádia: A Ana era uma pessoa muito carinhosa e bastante apegada à família. Curtia bastante a vida, mas sempre com responsabilidade. Justamente por ter esta vontade de viver intensamente, a Ana sempre teve vontade de fazer o tão famoso passeio de asa-delta, especialmente por ser no Rio de Janeiro. Ela já havia saltado de pára-quedas há alguns anos, após ter feito um curso no Aeroclube daqui de Manaus.
AFV: Ana Rosa revelou, desde cedo, desejo de cursar Medicina? Quais eram seus planos: profissionais e pessoais?
Nádia: Quando criança, a Ana pensou em ser professora, bailarina... Na adolescência, ficou dividida entre a arquitetura (que chegou a cursar um semestre) e a medicina. No entanto, acabou decidindo-se pela medicina, tendo cursado a faculdade na Universidade Federal do Amazonas. Ela disse repetidas vezes que aquela era sua vocação. Na ocasião do acidente, ela estava no final da residência médica em Ginecologia-Obstetrícia. Ela pretendia se especializar em gravidez de alto risco e abrir uma clínica com outros colegas (até o ponto comercial já estava escolhido). No plano pessoal, a Ana pretendia, em breve, constituir família.
AFV: A sra. tem se empenhado em identificar a causa do acidente e os responsáveis. Qual é a sua expectativa de resultados? O que já conseguiu a respeito?
Nádia: Sabemos que a luta será especialmente longa e árdua, mas acreditamos que pelo menos na esfera cível os culpados sejam responsabilizados. Até o momento, não conseguimos nada. Os vôos duplos continuam acontecendo como se nada houvesse acontecido.
AFV: Quais as medidas legais tomadas a respeito do acidente?
Nádia: O inquérito policial foi aberto na própria data do acidente pelas autoridades policiais. Hoje, 22 meses depois, o inquérito não foi concluído. A ação cível indenizatória está em curso na Justiça Federal, contra as Associações Brasileira e Estadual de Vôo-Livre, IBAMA (que é responsável pela área onde se encontra a rampa) e o Departamento de Aviação Civil. A ação ainda está na fase probatória e não houve nenhuma decisão judicial até agora. Houve um pequeno processo administrativo junto à Prefeitura do Rio de Janeiro e o DAC para que eles se pronunciassem sobre o vôo duplo comercial, onde ambos admitiram a ilegalidade da prática, mas disseram ser “impossível” fiscalizar a área.
AFV: O instrutor que acompanhou sua irmã, Edvaldo Silva, conhecido como Valtinho, tinha em seu currículo, diversos prêmios, inclusive o título de campeão de High Level Internacional. A sra. acha que houve falha de procedimento?
Nádia: Certamente não houve falha meteorológica não prevista. Acreditamos que houve excesso de confiança do “instrutor”, que segundo relatos baseava-se na sua experiência. Incrivelmente, a perícia na asa-delta (que desapareceu) foi realizada por membros da ABVL, e não houve qualquer conclusão exata sobre o motivo da queda. Sabemos que a asa-delta quebrou durante o vôo através de testemunhas, que também disseram que a asa já teria esgotado seu tempo útil. Para nós, houve falha de procedimento pela utilização de um instrumento desgastado pelo piloto e pelo descaso na fiscalização dos órgãos competentes.
AFV: É sabido que vôos duplos comerciais de Asa Delta são proibidos pelo DAC – Departamento de Aviação Civil -. Como se explica essa prática ostensiva? Esse fato está sendo considerado no Inquérito Policial?
Nádia: Infelizmente não tenho como explicar a prática ostensiva. Nenhum órgão público ou privado assume a responsabilidade pelos vôos ou pela sua não-fiscalização. Como disse anteriormente, já entramos com processos administrativos e mesmo após este fato os vôos continuam. Pensamos que talvez seja a certeza da impunidade. É certo que é uma prática extremamente lucrativa (um vôo pode chegar a custar 100 dólares, sem incidência de qualquer ônus como impostos). O fato de a asa ter sumido após a “perícia” realizada por membros da asa-delta ou a ilegalidade do vôo duplo comercial não estão sendo considerados no inquérito policial. Estive recentemente na 15ª DP e conversei com o responsável pelo inquérito, que não sabia que a prática é proibida e também não pareceu se importar com isto.
AFV: A sra. acha que atividades radicais como vôo de asa delta, rapel, bungee jump, arvorismo e outros, deveriam ser proibidos? Acha que havendo regulamentação, o exercício dessas atividades seria mais seguro?
Nádia: Acho que não deveriam ser proibidos, desde que praticados com segurança, responsabilidade e que os praticantes tenham acesso a todas as informações sobre o esporte. A regulamentação não é suficiente. Há que se ter fiscalização e punição prevista na lei para aqueles que não observarem as normais legais. Seguro de vida obrigatório e treinamentos constantes também devem ser feitos.
AFV: O fato de o instrutor ter falecido no acidente retira do inquérito, o principal "agente" dos fatos, sendo, pois, causa de extinção da punibilidade, de acordo com o Código Penal, artigo 107, inciso I. Assim, contra quem está correndo o inquérito? Qual a acusação?
Nádia: O inquérito policial foi enviado ao Ministério Público sem conclusão e, conseqüentemente, sem nenhuma acusação contra qualquer agente (além do Valtinho). O inquérito já foi enviado pelo MP duas vezes à polícia para averiguação de alguns pontos, mas até agora nada de concreto aconteceu.
AFV: As Associações Brasileira e Estadual de Vôo Livre tomaram alguma medida a respeito do acidente? Fizeram contato com a família, prestaram apoio material ou moral?
Nádia: Sim, os dirigentes das associações tomaram uma providência no dia do acidente e no dia seguinte: desligaram os respectivos celulares para não serem incomodados. Note que os números foram fornecidos pelos próprios a um amigo meu que esteve no IML na data do acidente. Eles haviam dito que cuidariam da liberação e do traslado do corpo para Manaus. No entanto, toda esta providência por nós através de uma funerária. Para se ter uma idéia, o corpo da Ana foi liberado cerca de 2 horas antes do enterro do Valtinho, cujo corpo foi liberado do IML no mesmo dia do acidente, mais de 12 horas antes do corpo da minha irmã. Na ocasião do acidente, disseram também que não havia qualquer seguro para o tripulante, somente para o piloto (e só em caso de internação; não seria um seguro de vida). Depois de alguns meses, um corretor de seguros entrou em contato comigo para o pagamento de um seguro (que não sabemos de onde surgiu) no valor de R$ 10.000,00, que não foi aceito pela nossa família. Cumpre notar que este seguro só foi oferecido após termos constituído advogado no Rio de Janeiro para acompanhar o caso. Como se isso tudo não bastasse, continuam permitindo a prática ilegal do vôo duplo comercial.
AFV: A sra. gostaria de completar sua manifestação?
Nádia: Gostaria de frisar que nossa luta não tem um caráter pecuniário, ao contrário do que alegam na contestação judicial os cínicos representantes das associações. Queremos, sim, que os (ir)responsáveis sejam punidos. Minha irmã era uma médica brilhante e admirada pelos colegas de trabalho e professores; era uma pessoa muita amada pelos familiares e amigos; e sabemos que sua vida não foi em vão, pois tivemos o prazer de desfrutar estes 27 anos em sua companhia. Não podemos, pois, deixar que sua morte tenha sido em vão, em função da ganância e irresponsabilidade de pessoas que até agora não sofreram nenhuma punição. Nosso objetivo com a ação judicial é evitar que novos “acidentes” aconteçam e mais famílias sejam abatidas com uma tragédia como esta.
AFV: Nossa associação agradece a atenção e, mais uma vez se solidariza com a sra. e sua família, colocando-se à disposição para o que pudermos ser úteis.
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