“Faz um tempo já que quero escrever a história desse dia. Isso tem me atormentado um pouco, porque parece que é necessário colocar em palavras claras e precisas aquilo que é anuviado pelo tempo, o que não sai de forma clara no verbo ditado. A escrita pode me ajudar, pois posso escolher melhor o que por no papel, apagar, reescrever, e só com o resultado final em mãos escolher mostrar para alguém ou não. Mas escrevo para mim ou para os outros?


Será que ao mostrar a um outro o que escrevo para mim, é para mim que estou direcionando a atenção desse outro, assim me satisfazendo? Às vezes, me dá vontade de ser visto e a história desse dia é muito importante para o que me tornei e o que me tornarei. Assim, escrevo para esclarecer em minha própria existência o que aconteceu em 15 de fevereiro de 2002, quase dez anos atrás. Escrevo também para que meus amigos saibam o que aconteceu comigo e me conheçam como quero que me conheçam. Estou um pouco vacilante nesse começo, não sei se devo escrever. Parece que estou com medo de ressuscitar certos fantasmas que estão muito bem enterrados”.

Bom, depois de uma enrolada e um cigarro, me vem à mente o momento em que estava sentado na cama do meu quarto no resort de Salinas do Maragogi, em Alagoas. Era carnaval, feriado pelo qual eu nunca tive muito apreço. Tinha viajado com minha família, tia e tio, mãe, padrasto, irmã. Padrasto que é quase um pai, ou é pai, mesmo que brigas adolescentes e inseguranças minhas me impeçam até hoje de lhe conferir esse título. Irmã que tecnicamente é meia-irmã, mas que sempre chamei de irmã, sem a assepsia que reservo ao padrasto. Victoria, filha do Fernando com minha mãe, tinha nove anos, e eu tinha dezesseis. Ela naquele momento estava sentada na cama comigo, e eu estava ensinando-a a jogar crapô. Apesar de ensolarado, o dia não era bom, eu estava enjoado e queria ficar no quarto. A Victoria me fazia companhia, da mesma forma que eu já havia sido muitas vezes seu companheiro.

Lembro de uma outra viagem, em um julho mais distante, num resort também, quando viajamos com tia, tio e prima, sem pais. E era aniversário da Victoria, que estava extremamente triste nesse dia 24 no qual ela completava 8 anos distante de papai e mamãe. Fiquei com ela o dia inteiro e no dia seguinte ela já tinha feito uma amiguinha e a tristeza havia se dissipado. Lembro também de ter ensinado a ela como andar de patins, jogar videogame e escutar Saltimbancos. Apesar das constantes brigas e manhas, nós brincávamos muito.

Algum tempo passou e aquele jogo de crapô, já pouco interessante, foi abandonado para que a Vivi pudesse ir ao passeio a cavalo oferecido pelo resort. Era a segunda vez que ela ia nesse passeio, ela tinha gostado bastante, e eu fiquei no quarto com meu enjôo e a TV.

Meu pai, de sangue, morreu quando eu tinha quase dois anos. Câncer de pele, desses que espalha e te destrói por dentro. Não tenho nenhuma memória dele, só sei que quando tinha uns 10, 11 anos, passei a ter crises de ansiedade, que foram relacionadas a um luto tardio pela minha psicóloga. Aos 12 comecei a tomar anti-depressivos para controlar a ansiedade e fazia terapia constantemente. Viajar, estar longe de casa, era um suplício para mim, pois quando conseguia partir, tinha ataques de pânico na viagem e queria voltar. No Reveillón de 2001 para 2002 eu quase perdi uma viagem com um novo amigo por causa disso.

Uma ou duas horas se passaram quando minha mãe e o Fernando entraram correndo no quarto. Assustei. Eles estavam revirando as malas, atrás de documentos e dinheiro. Claramente desesperados, me falaram que a Vivi tinha caído do cavalo e estava a caminho de um hospital. Saíram correndo e voltei a ficar com o meu enjôo.

Besteira, pensei. Deve ter batido a cabeça e foi levada para o hospital por precaução. Nada demais. Me distraí com a TV, sem pensar muito no que poderia ter acontecido. Não me passava pela cabeça a possibilidade de que aquele momento no qual me despedi da minha irmã para que ela fosse no passeio à cavalo tinha sido a última vez que falaria com ela.

Distraído, não vi o tempo passar. Foram duas horas até a dúvida bater na minha cabeça como uma bigorna. E se. E se algo mais sério tiver acontecido. E se ela tiver ficado paraplégica, estar em coma. E se ela tiver morrido. Não, isso não era possível, eu mesmo já caí do cavalo em nossa fazenda tantas vezes, assim como meu irmão, que nesse momento estava em São Paulo. Já quase morri com um touro me perseguindo, tenho um primo, na verdade filho da minha madrinha, que tomou um coice de um cavalo quando criança e nada mais grave tinha acontecido. Fiquei inquieto, nervoso, ansioso, e saí do quarto a caminho da recepção do hotel, onde encontrei minha tia. Ela estava de plantão na recepção, aguardando um telefonema. No caminho, passei por um funcionário do hotel que tinha ido ao meu quarto me chamar.

Na recepção, aguardando notícias com a minha tia, cruzei com o monitor do passeio a cavalo e o gerente do hotel, que tinham mandado o funcionário me chamar. Eles conversaram comigo e disseram que minha irmã tinha sido levada para o Recife, capital pernambucana a 133 quilômetros de distância. Estávamos em Alagoas, porque não Maceió? Porque tão longe? Não me lembro de ter essa pergunta respondida, mas lembro de dizer que ela devia apenas ter batido a cabeça e que não seria nada demais. Recordo-me bem de não ter obtido qualquer resposta a isso.

Nervoso, sentei do lado da minha tia e aguardei um pouco, quando o telefone da recepção tocou. Sabia que eram notícias da minha irmã. Minha tia foi chamada ao telefone. Ela colocou o fone no ouvido, ficou em silêncio, e exclamou. Morreu? Nunca estive tão pesado. Minhas pernas fraquejaram e eu caí no chão, chorando. Gritando, urrando, me esgoelando. Só o chão me impedia de cair a uma profundeza inimaginável. Morreu. A palavra não parava de ressoar. Até hoje. Não era possível. Tinha mudado de dimensão, a realidade havia sido desfeita, rasgada. Me levaram para um salinha. Não tenho a menor noção cronológica daí pra frente. Sei que estava absolutamente arrasado, prostrado. Meu enjôo se transformara em diarréia e eu fui ao banheiro. Nada disso estava acontecendo.

Resolvi que precisava falar com o meu irmão. Antes, minha tia ligou para o meu primo e o orientou a ir para nossa casa em São Paulo oferecer apoio. Liguei para meu irmão, e a piada do gato que subiu no telhado me veio à cabeça. Sem maneira possível de amaciar a notícia, falei pausadamente que a Victoria tinha ido a um passeio de cavalo, tinha caído, sido levada ao hospital e morrido. Ele começou a chorar e sua namorada, atual esposa, pegou o telefone e me perguntou o que tinha acontecido. Disse, sem rodeios, que a Victoria tinha morrido e desligamos o telefone.

Não existe nada pior do que as questões práticas que surgem numa situação dessas. Quando tudo o que você quer é desaparecer. Sumir. Desmaiar. Eu estava torcendo para desmaiar e não ter que lidar com nada disso. Me levaram até meu quarto e me disseram que eu tinha que fazer as malas para ir para o Recife. Estava desesperado e absolutamente sem condições de fazer qualquer coisa senão ficar deitado na cama gritando e chorando. Foi quando o Médico chegou. Um cara grande, gordo, de branco, acompanhado de uma enfermeira. Ela mediu minha pressão e meus batimentos. O Médico me disse algo que me tirou do círculo vicioso de desespero. Ele foi curto, grosso e bem filho da puta. Por um tempo eu fui agradecido. Hoje, acho que a atitude dele foi muito escrota. Ele disse que tinha na mão um calmante, me mostrando a ampola e a seringa, e que se eu quisesse me aplicaria a injeção e eu dormiria. Me aplica agora essa merda, pensei. Porém, ele continuou dizendo que minha família precisava de mim naquele momento e caso eu estivesse apagado, eu seria mais um problema, ao invés de um apoio.

Instantaneamente parei de chorar. Assumi a postura de super-herói que me custaria tão caro mais adiante. Levantei da cama e comecei a jogar todas as nossas roupas de qualquer jeito nas malas. Separei uma calcinha, um vestidinho branco e um par de sandálias para a Vivi usar e entrei numa van acompanhado da minha tia e tio, enfermeira e motorista. Estava sério, tendo minha pressão medida a cada 10 minutos. Mudo, não vi o tempo passar, e cheguei a um hotel chique do Recife.

Esperando na recepção, vi quando minha mãe e o Fernando chegaram do hospital. Minha mãe pedia para uma mulher que estava ao seu dispor que comprasse um maço de Marlboro vermelho para ela. Chorando, cada um me abraçou. Só me lembro com precisão do que o Fernando me disse. Você viu o que fizeram com a minha filha? Você viu o que fizeram com a Vivi? Subimos para o quarto. Eu não chorava, nem falava muito. Passei aquela noite em claro. Minha mãe, quando fumava na janela, tinha o meu braço entre seu corpo e a queda de 11 andares. Eu não pensava em nada, só agia. Minha mãe, revirando a mala, jogando tudo para fora, bagunçado, chorando, atrás de seu nécessaire para tomar banho, ficou gravado na minha memória como uma das cenas mais tristes que já vi. Ela é uma mulher extremamente organizada e ordeira. Na minha frente, estava uma mulher que havia perdido uma filha e se transformado. Pedi desculpas pela bagunça da mala.

Na manhã seguinte eles foram para o IML. Anos depois, fui saber que foi absolutamente terrível ver o corpo nu e desfigurado de minha irmã na fria mesa de metal. Agradeço muito por não ter testemunhado isso e nem a queda em si, que como descobri tempos depois também, se deu devido a um susto levado pelo cavalo, que disparou fazendo minha irmã cair. A sela, destinada a adultos, tinha sido improvisada para levar a Vivi, e foi o improviso no estribo que prendeu seu pé e fez com que ela fosse arrastada por centenas de metros até o cavalo parar. Não sei, mas torço muito para que ela tenha desmaiado logo na primeira queda, não tendo vivenciado ser arrastada e machucada por um animal muitas vezes mais forte que ela. Não consigo imaginar a dor, o medo e o desespero que ela poderia ter vivido nesses momentos, e espero até hoje que sua morte tenha sido rápida e o desespero se limitado ao tempo entre a percepção de que iria cair e o encontro com o solo.

Fiquei no quarto assistindo as olimpíadas de inverno. Curling, esqui. Estava anestesiado, não sentia, não ouvia, não falava. Não sei quanto tempo passou até irmos para o aeroporto.

Disse acima que não existe nada pior do que as questões práticas que surgem numa situação dessas. Mentira, existe sim. Existem pessoas estúpidas. Pessoas que não sabem controlar sua própria angústia frente à morte e falam um monte de merda pra quem está sofrendo. No aeroporto, uma mulher chegou para a minha mãe e disse, como se fosse a minha irmã, que ela estava bem, mamãe, que ela estava no céu. Puta que o pariu, isso até hoje me dá raiva. No enterro e na missa, as pessoas diziam que a Vivi tinha ido para um lugar melhor, que ela estava junto a Deus, que ela tinha cumprido sua missão na Terra, que pelo menos minha mãe ainda tinha dois filhos. Pessoas que perderam uma ótima oportunidade de ficarem quietas. Foram poucos os sábios que simplesmente falaram sinto muito, se precisar estou aqui.

No vôo para São Paulo, com o caixão de minha irmã junto às malas, tive a pior viagem de avião da minha vida. Não bastasse o sofrimento óbvio, a turbulência, a falta de sustentação que fez o avião perder altitude repentinamente e a aeromoça correndo com um extintor de incêndio em direção ao banheiro fizeram com que eu desenvolvesse um medo ainda persistente de voar. Ganhei uma homeopatia da minha vizinha de assento. Não sei se foi seu remédio ou seu acolhimento que me fizeram acalmar.

Chegando a Congonhas, desci do avião e vi meu tio, irmão do Fernando, fora da seção de desembarque, como se fosse um funcionário da pista. Não sei como ele conseguiu ir até lá. Ele nos abraçou e junto com o Fernando foram cuidar do caixão. Saí pelo desembarque e encontrei toda a minha família, chorando e nos abraçando. Abracei meu irmão e finalmente eu me soltei mais uma vez. Não chorava nem falava desde meu encontro com o Médico. Não fazia nem 24 horas, mas parecia muito tempo. Pedi ajuda, disse que tinha segurado uma puta barra que ele agora tinha que dividir comigo. Um amigo dele, o Neto, me levou para casa, onde eu tomei banho e me arrumei para o velório.

No Araçá, com o velório cheio, buscava um espaço. O que fazer. Resolvi ir até o caixão. Encontrei muitas flores e coroas, deixadas por familiares, amigos e empregados atuais e antigos de nossa casa. A irrealidade de uma criança morta mobiliza muito. Não é um avô já doente, ou velho. É uma criança apenas, é muito brutal, muito irreal. Me aproximei do caixão fechado e vi algo que não esperava. Tinha uma janelinha. Uma porra de uma janelinha sobre o rosto da Vivi. Congelei. Eu gritava internamente, querendo sair correndo dali, mas meu corpo não respondia. Parecia que eu estava cindido. Vi sua face. Ela estava pesadamente maquiada. Percebi que a base escondia machucados em seu rosto e disfarçava um band-aid. Ela vestia o vestido que eu tinha escolhido. Ela estava machucada, e seu rosto sem vida estava sério. Finalmente consegui sair dali, saí para a rua e comecei a chorar engasgado. Meu primo tentava me controlar, sem sucesso. Um tempo depois, sentado do lado de fora, enjoado, a massagista da minha mãe veio conversar comigo e colocou sua mão na boca do meu estômago. Senti sua mão muito quente e de repente levantei com ânsia de vômito. Um amigo da família me acompanhou até o banheiro onde vomitei muito. Me sentindo destruído mais uma vez, vi um amigo chegando. Ele morava perto do Araçá e veio me abraçando e chorando.

Nesse dia, eu tinha ligado para um dos meus novos amigos do Santa Cruz para contar o que tinha ocorrido. Minha pretensão era inocente e de baixa expectativa. Conhecia fazia muito pouco tempo essa turma com a qual formei um time de futebol no Colégio. Os Dez, que mais tarde virariam os Onze, eram amigos novos. E quando liguei para um deles, expliquei que somente queria evitar um mal-entendido, para que ninguém falasse da minha irmã numa brincadeira somente para descobrir depois que ela estava morta. Não esperava que ninguém aparecesse. E um a um, e em grupos, eles foram ao velório. Me levaram para comer no Burdog, me deram apoio. Eu sorri quando vi o Mauro, o primeiro a chegar, com seu choro e abraço.

O tempo foi passando e o que aconteceu dali em diante já é compartilhado. A missa de sétimo dia foi lotada, com centenas de pessoas, e foi terrível ficar de pé para cumprimentar todas e ouvir um monte de merda, como eu já falei. Recebemos muitas visitas em casa, eu voltei às aulas, à terapia, ao psiquiatra. Minha ansiedade foi às alturas, eu tinha ataques de pânico constantes. Os Onze insistiam em me tirar de casa, me levar para viajar, me suportaram durante meus ataques de pânico, meus medos, minhas ansiedades, minhas loucuras. Devo muito a eles. Tive desde pensamentos suicidas até uma vontade quase incontrolável de fazer cortes em meus braços com uma faca de cozinha. Minha casa estava em frangalhos, eu também. Foi com o tempo, apenas, que as coisas foram melhorando. O tempo, não o cronológico, que foi aos poucos fazendo a ferida fechar. A dor da perda se transformava em força, a ansiedade encontrou um escape criativo.

Mas eu envelheci. Minha mãe, o Fernando, meu irmão. Todos nós envelhecemos muito. Acho que não seria possível não envelhecermos. Saudade envelhece, diz Rosa. Perde-se a inocência de que tudo vai dar certo, a invulnerabilidade da juventude. Até hoje, sempre que meu telefone toca tarde da noite, ou alguém me liga insistentemente, penso que algo ruim aconteceu. Às vezes, ouço risadas e penso que são choros. Sou gato escaldado. Aprendi pela experiência que algo ruim pode acontecer a qualquer momento, de repente, sem aviso. Essa cicatriz ficará para sempre, é inevitável. Sempre haverá a falta, a saudade, o que poderia ter acontecido. Como ela seria hoje, com 18 anos, quase 19. Em formaturas e casamentos, penso na formatura e casamento que não vão acontecer. Nas festas, nas viagens e nos shows, penso na diversão e na beleza que não foi vivida.

Hoje a carrego em meu braço, para sempre, no formato de sua marca registrada, o cabelo cacheado agora tatuado em minha pele. Fica para mim a responsabilidade de viver como for possível e assim honrar minha irmã, que teve sua vida ceifada tão precocemente.

21/06/2011

“A Menina que Vive
Foi numa tarde de sexta feira após um jogo de buraco
Que me despedi pela última vez
Não sabia que seria a última
Ela a caminho do passeio a cavalo
Eu no quarto com náuseas
O enjoo prenunciava a catástrofe
O desastre
O tempo parou
O mundo parou
Eu prostrado no chão
Há quinze anos uma menina caía do cavalo
Não tinha uma década de vida
Minha dor é mais velha que ela
Há quinze anos abriu-se um talho em mim
Destino cruel com uma faca fria
Não fez cerimônia nem se preocupou com os meus planos
Demorou anos para um mês passar
Foram décadas tentando fechar o talho com linhas de costura
Todas se romperam
Só o tempo foi mais poderoso que a dor
Antes ela me jogou de cara no chão
Hoje eu a carrego por aí
A menina que mudou a minha vida
Se foi há quinze anos
Mas vive marcada na minha pele
A menina que não fica mais velha
Vive em todas as minhas alegrias
Se transformou em força e inspiração
A menina que gostava de patins
Fazia bijuterias e jogava videogame
Ainda hoje se faz presente na saudade
A menina manhosa
A menina companheira
A menina curiosa
A menina dos cabelos cacheados
A menina que vive
A Vivi”
por Daniel Pucci, irmão de Victoria Basile Zacharias